Quem foi Nikola Tesla e por que a Tesla Motors usa seu nome?

No que você pensa quando lê a palavra Tesla? Na inovadora empresa de baterias e carros elétricos comandada pelo magnata Elon Musk ou no cientista sérvio Nikola Tesla? Convenhamos, boa parte do público ligado no mercado (no sentido amplo: de carros, energia, eletrônicos) também pensaria a mesma coisa.

Também não é difícil associar a palavra ao futuro, já que Musk e sua companhia vêm nos preparando para ele. Se dependesse unicamente das ambições da empresa, o nosso mundo já seria alimentado por energia solar e nossos automóveis seriam unicamente movidos a bateria.

Difícil ignorá-los, não?

No entanto, a origem da palavra Tesla remonta a um cientista genial sem o qual, para início de conversa, nós sequer poderíamos conceber a ideia de energia elétrica como a conhecemos. Estamos falando de Nikola Tesla, sérvio naturalizado americano que foi responsável por inúmeras descobertas no campo da eletricidade e do eletromagnetismo.

Nosso artigo é uma pequena biografia sobre o visionário e o que levou a Tesla, a empresa de baterias, a adotar seu marcante nome.

Carro Tesla

Por que a fabricante de carros Tesla tem este nome?

É uma história curiosa. Tudo começa com o passeio de Martin Eberhard, co-fundador e primeiro CEO da Tesla, quando ela ainda se resumia a uma montadora, acompanhado da esposa Carolyn na Disneylândia. Já naquela época, Eberhard alimentava o sonho de construir um carro elétrico e dava seus primeiros passos em direção à incrivelmente bem-sucedida empreitada.

Contudo, Eberhard encontrava dificuldades para nomear a empresa. Que nome teria impacto, seria de fácil memorização e comunicaria os ideais de sua firma? Eberhard não queria nada excessivamente “verde”, ou seja, nada que fosse obviamente ecológico. Tampouco um título que, embora guardasse coerência temática, soasse muito genérico, como Leaves ou Volts.

Foi aí que sentado com Carolyn no Blue Bayou (restaurante que fica dentro da atração temática Piratas do Caribe) Martin Eberhard teve a ideia: por que não usar o nome do grande gênio Nikola Tesla, inventor do motor elétrico de indução que a própria companhia planejava usar? Pronto. Esta ideia atrelaria a Tesla Motors (depois Tesla Inc.) ao revolucionário cientista.

Um pouco mais da história de Nikola Tesla

Nikola Tesla Foto

Conheça o jovem Nikola Tesla: dos anos iniciais à corrente alternada

A juventude de Nikola Tesla

Filho de pais sérvios, Nikola Tesla nasceu na aldeia de Smiljan, à época território pertencente ao Império Austríaco, em 10 de julho de 1856. Desde criança demonstrava criatividade e imaginação notáveis, assim como uma inclinação à poesia (algo que pode ter herdado da mãe que, embora analfabeta, tinha uma capacidade mental abençoada, capaz de memorizar diferentes poemas épicos).

Assim que atingiu idade suficiente, Tesla ingressaria no curso de Engenharia Elétrica da Politécnica Austríaca, em Graz, e depois na Universidade de Praga. Foi em Graz que Tesla teve primeiro contato com um dínamo (invenção de Zénobe Gramme que convertia energia mecânica em elétrica), o qual seria fundamental para a posterior invenção, por parte de Tesla, do motor de indução elétrica em corrente alternada.

Apesar do desempenho brilhante no tempo em que esteve matriculado, não finalizou os cursos de bacharelado em nenhuma das duas universidades. Em Gratz, acabou perdendo muito dinheiro e até a bolsa de estudos em jogos de azar. Já sem grana, sem foco e com um desempenho abaixo das expectativas no fim do terceiro ano letivo, abandonou a academia.

Depois passou um tempo desaparecido para ocultar da família sua jubilação até o inevitável reencontro e, de súbito, a morte do pai. Ingressou com ajuda de parentes na segunda universidade. Infelizmente, em Praga as coisas também não correram como o previsto. Apesar da capacidade intelectual inquestionável de Tesla, por ter entrado tarde no curso teve sérias dificuldades com o Grego e o Tcheco, que eram requisitos mínimos e ele não havia estudado. Como consequência, acabou tendo que largar a vida acadêmica mais uma vez.

Nikola Tesla começa a trabalhar e se destacar

Em 1881, ele se muda pra Budapeste, onde trabalhará sob as asas de Tivadar Puskás na companhia telegráfica da cidade, ainda em fase de construção. Logo seria alçado ao cargo de eletricista-chefe. Nesta época, Tesla pela primeira vez conceituou, ainda em fase de rascunho, suas ideias de campo magnético girante e motor de indução, relevantes para a bem-sucedida aplicação da corrente alternada.

Tesla então iria, em 1822, para a Companhia Continental Edison instalada em Paris. Em 1883, ele finalmente encontraria tempo livre para construir seu primeiro motor de indução.

Nikola Tesla Placa

Tesla americano

Em 1884 seu supervisor em Paris, Charles Batchelor, seria chamado de volta aos EUA para gerenciar uma divisão da Edison situada em Nova Iorque e solicitaria que Tesla viesse com ele. Assim, o engenheiro sérvio, aos 28 anos, pisa pela primeira vez em solo americano levando nada mais que sua carteira, poemas, uma trouxa de roupas e cálculos para uma máquina voadora. No futuro, seria finalmente naturalizado americano.

Após um importante período produtivo trabalhando na Edison Machine Works, as diferenças criativas revelaram-se demasiadas para que o inventor permanecesse na companhia. Antes de sair, chegou a encontrar pessoalmente o futuro competidor Thomas Edison em algumas ocasiões.

Em 1885, ele encontra investidores e abre sua própria companhia, a Tesla Electric Light & Manufacturing. Lá ele foi capaz de patentear seu próprio modelo de gerador de corrente direta. Também foi responsável pela instalação de sistemas elétricos em algumas cidades, mas diferenças criativas fizeram com que os investidores fechassem a firma e o abandonassem sem um tostão furado no bolso. Durante certo período de tempo após a extinção da Tesla Electric, ele teve que ralar em trabalhos manuais para conseguir se sustentar nos Estados Unidos.

Nikola Tesla Time

Guerra das Correntes

Felizmente, em 1887 sua sorte muda mais uma vez ao encontrar investidores mais interessados e ainda mais convictos das potencialidades da corrente alternada. Com esse apoio, funda no mesmo ano a Tesla Electric Company e termina algumas de suas primeiras invenções baseadas em corrente alternada.

Então, em 1888, o empresário George Westinghouse compra seus direitos de patente dos motores, dínamos e transformadores em corrente alternada. O sucesso e o destaque midiático das invenções dão início a uma “guerra” de mercado (apelidada Guerra das Correntes) com Thomas Edison e seu sistema de corrente contínua.

Edison, com sua forte orientação mercadológica e publicitária, estava disposto a jogar sujo. Utilizando sua influência e rede de contatos, passou a difamar o concorrente Westinghouse na imprensa. Tesla ignorou tais ataques, concentrando a inventividade de sua mente em suas criações.

Uma curiosidade: A Guerra das Correntes, embora tenha sido essencialmente uma disputa de influência tecnológica, resultou em seu extremo na criação da cadeira elétrica. Empreendendo experimentos públicos que demonstrariam a natureza “maligna” da corrente alternada, Edison executou animais supostamente a utilizar a tecnologia de Tesla para comprovar seu argumento. Estes experimentos iriam se tornar protótipos da infame máquina de execução. O mais irônico é que Thomas Edison sequer era favorável à pena de morte.

Para infelicidade de Edison, que posteriormente alimentaria um enorme rancor pelo fracasso de seu sistema perante a criação de Tesla, a corrente alternada demonstrou-se muito mais eficiente, prática e poderosa, tornando-se o principal sistema de distribuição elétrica do mundo desde então.

Genialidade sem limites

Nikola Tesla Lab 2

O revolucionário já havia nascido. Poucos homens deixariam um legado tão glorioso. As inumeráveis invenções de Tesla são tão importantes em sua vida, sua biografia, quanto na nossa. A contemporaneidade seria muito diferente sem a sua presença.

A partir de suas primeiras obras, sua criatividade impressionante daria passos fundamentais, quando não pioneiros, nas áreas do eletromagnetismo, do raio-x, da comunicação sem fio e até da robótica.

Dito isso, concordamos que a palavra “revolucionário”, de tão reiterada, pode ter seu sentido original esvaziado. No caso de Tesla, porém, ela é aplicada de forma tão justa quanto se a usássemos para nos referirmos a Leonardo da Vinci, Aristóteles ou Isaac Newton. Infelizmente, seu nome e sua história não são tão conhecidos quanto os deste trio.

Para captar ainda melhor a importância de seu gênio, como se ela já não estivesse suficientemente clara neste sumário brevíssimo de seus anos iniciais, listaremos algumas das contribuições científicas de Tesla. É uma lista tão vasta e inovadora que jamais cansa de espantar e inspirar.

Invenções de Nikola Tesla

Nikola Tesla Desenho

Não seríamos capazes de fazer jus a todas as realizações do cientista, porque foram muitas e muitas e muitas. Sem falar daquelas que ele não patenteou, tendo sido “roubadas” por outros inventores, e as que ele visualizou, conceituou, mas não pode executar por limitações tecnológicas do tempo. Sabe-se lá o que ele seria capaz de fazer caso tivesse nascido no século XXI.

Bom. Para não transformar este artigo em um gigantesco inventário, listamos abaixo somente algumas das mais conhecidas e importantes invenções de Tesla.

Sistemas de corrente alternada

Talvez a invenção mais importante de Tesla e toda a história da energia elétrica, o seu sistema de corrente alternada (detalhe importante: Tesla não descobriu a corrente alternada em si) demonstrou alcance e eficiência inigualáveis, devido à fácil variação de tensão simplificada por um transformador.

Os experimentos com corrente alternada remontam a 1881, quando ainda trabalhava em Budapeste, mas o inventor sérvio só encontraria dinheiro e liberdade para desenvolver seu projeto e torná-lo o que conhecemos hoje quando chegou aos Estados Unidos.

Antes da corrente alternada, os sistemas elétricos mais conhecidos utilizavam a corrente contínua, patenteados por Edison (que não era seu verdadeiro inventor, diga-se de passagem). Embora tenham sido igualmente importantes, os sistemas de corrente contínua eram caros e de difícil manutenção, exigindo conversores pesados e complicados.

A corrente alternada, por sua vez, permitiu que ligações elétricas fossem estabelecidas entre cidades com custo racional e eficiência de conversão superior à da corrente contínua. A superioridade da corrente alternada, junto à simplicidade de sua instalação, garantiu sua adoção mundial.

Bobina de Tesla

Criada por volta de 1890, a bobina de Tesla é um transformador ressonante capaz de produzir altíssima tensão em frequências elevadas, até então pouco exploradas e compreendidas. Fruto do sonho de Tesla de alimentar eletricamente o mundo inteiro sem a necessidade de redes e fiações, esta criação ousada e multifuncional possibilitou a primeira transmissão de energia elétrica sem fio.

Também graças a este experimento visualmente impressionante, as tecnologias wireless teriam uma base de estudo para virem a existir: a bobina de Tesla levaria à criação do rádio.

Além disso, a bobina foi desde então usada em outras experimentações em energia elétrica, fosforescência, eletroterapia e entretenimento. Continua sendo usada com frequência como demonstração em eventos de divulgação científica.

Mais importante, porém, é que Tesla demonstrou de maneira prática que o planeta já é uma espécie de ímã capaz de eletromagneticamente produzir eletricidade.

Sim…

Ele descobriu a frequência ressonante do planeta Terra.

É possível depreender destas descobertas uma visão tão à frente de seu tempo que não nos surpreenderíamos se Nikola Tesla também fosse pioneiro das energias solar e eólica.

Lâmpada fluorescente

Sabe a lâmpada “branca” que você usa em casa para economizar energia ou ilumina seu escritório ou sala de aula? Criação de Nikola Tesla também.

A lâmpada fluorescente, em comparação à incandescente (amarela), aquece-se menos e dissipa menos energia em forma de calor. A lâmpada foi introduzida no mercado em 1938. Trata-se de uma invenção de Tesla que quase ninguém lembra que é dele.

Muitas das que listaremos abaixo têm o mesmo “problema” de patente.

Rádio 

Nikola Tesla Torre

Embora Guglielmo Marconi tenha sido tratado por muito tempo como inventor do rádio, por ter se apressado na declaração de patente, esta verdade seria contestada e juridicamente revogada (depois revalidada com apoio de Thomas Edison) após constatarem que Tesla o havia inventado anteriormente.

Dispondo de seu alto conhecimento de frequências, oriundo das experimentações com a bobina, Tesla percebeu que os sinais de rádio se dariam a partir de suas próprias ondas de frequência, bastando para a concretização do rádio este entendimento somado à presença de um transmissor e um receptor.

Controle remoto

Produzido como decorrência do rádio, os primeiros controles remotos foram produzidos por Nikola Tesla muito antes de se popularizarem como instrumentos de preguiça de ligar/desligar nossos eletrônicos.

A primeira aplicação foi bélica, produzindo barcos militares (também protótipos robóticos) a ser dirigidos remotamente. Neste sentido, apesar da relevância irrefutável dos controles remotos, é difícil não entender seus barcos como versões primitivas dos drones. A intenção belicista era quase a mesma. Não por parte de Tesla, vale notar.

Outra coisa digna de nota é que graças ao foco de Tesla no âmbito da eletricidade, indo na contramão de cientistas polímatas (isto é, que estudavam várias áreas), ele pode interligar suas diferentes invenções numa trajetória bem orgânica.

É uma cadeia de acontecimentos. O controle remoto só existe por causa do rádio que só existe por causa da bobina que só existe por causa dos estudos de corrente alternada que só existem porque um homem chamado Nikola Tesla decidiu dedicar sua vida à engenharia elétrica.

Sorte nossa, né?

Raio-X

William Röntgen é considerado o pai da radiografia, mas Nikola Tesla também teve papel importante na sua criação. Aliás, parece que Tesla, meio que por acidente, antecipou-se a Röntgen e capturou o primeiro raio-x da história.

Além disso, Tesla foi um dos primeiros a perceber, muito antes da constatação de sua perigosíssima radioatividade, que o raio-x era potencialmente nocivo para organismos vivos, recusando-se a usá-lo terapeuticamente.

Robótica

Tesla não é exatamente um criador de robôs humanoides, mas o inventor do conceito.

Ele antecipou, baseando-se em reflexões sobre as similaridades entre máquinas e homens (e o que nos move), que a sociedade chegaria a um ponto de desenvolvimento tecnológico em que fabricaria com facilidade réplicas humanas para “terceirizar” serviços e “maximizar” a produtividade dos seres humanos.

Isto, meus caros, muito antes da engenharia robótica e de Isaac Asimov.

Motor de indução

Origem e desdobramento dos experimentos com corrente alternada, o continuamente aprimorado motor de indução de Tesla utiliza campos magnéticos girantes para obter indução elétrica. Teve como consequência não apenas a evolução dos sistemas de corrente alternada, mas a instalação de usinas hidrelétricas. Pode ser encontrado ainda hoje em inúmeros eletrodomésticos.

Esta invenção voltou a ganhar destaque com a chegada da Tesla Motors. Os CEOs da montadora, à época de sua fundação, apontaram o motor de indução teslaniano como inspiração e base teórica de seu carro elétrico.

O fim de Nikola Tesla: apenas o início

Nikola Tesla Assinatura

Trabalhamos para que este artigo faça justiça não apenas ao inventor, mas ao homem. Sabemos que a tarefa não é fácil e às vezes beira o irrealizável, mas é uma verdadeira lástima que uma figura que nos deixou um legado tão importante seja esquecida com tanta frequência nos anais da história.

Bom, Nikola Tesla sempre se viu às voltas com sua própria inabilidade como publicitário e homem de negócios, o que acabou por limitar o alcance de seu nome e de suas finanças. Tesla só se importava com dinheiro no limite de sua necessidade para suas invenções. Tanto que acabou abrindo mão de suas ações e royalties para Westinghouse e, ao invés de chegar ao fim da vida com uma fortuna confortável, morreu pobre.

Edison, mesmo sendo um cientista menor, acabou por enriquecer substancialmente pela agilidade em patentear invenções alheias e por seu talento publicitário. Estas aptidões simplesmente faltavam a Tesla, um homem que focou seus esforços em um objetivo (expandir o acesso da humanidade à eletricidade) com tanta intensidade que acabou revelando-se inábil com todo o resto.

Há um episódio poético publicado aqui e relatado originalmente por Tesla em que este, já perto do fim da vida e mentalmente perturbado, testemunhou entrar pela janela do quarto de hotel em que passou seus anos derradeiros a sua pomba predileta (ele desenvolveu uma obsessão pelos pássaros, clamando inclusive que amava esta pomba em particular como alguém que amasse outro ser humano). Então, quase que anunciando o fim, com olhos que brilhavam de uma luz mais intensa que qualquer luz que Nikola Tesla tivesse produzido em seus laboratórios, a pomba morreu em seus braços.

A morte de Tesla é como a da pomba de olhos reluzentes: antes de morrer, Tesla deixou um legado que iluminou não apenas as nossas casas, cidades e objetos pessoais, mas nossas aspirações e maneiras de ver o mundo. O homem que moldou o século XX, e que se torna cada vez mais lembrado a reverenciado, seja na referência a seu nome por uma das empresas mais importantes do nosso tempo ou na participação como personagem de destaque em ficções e biografias, está mais vivo do que jamais esteve.

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